
Texto extraído do site www.jornaldaparaiba.com.br
"BOLSA FAMÍLIA".
Juíza de Cajazeiras é contra e diz por que. Apenas a título de esclarecimento,
aos que respeitam opiniões contrárias, e apenas a esses, é que escrevo agora.
Fui alvo de críticas e agressões acerca de minha opinião avessa ao Bolsa
Família, programa criado pelo Governo Federal há 10 anos. Grande parte optou
por uma justificativa simplista: "é rica, juíza, elite, fala porque nunca
passou necessidades, nunca passou fome..."
Pronto,
essa justificativa encerra a questão e resolve o problema. É uma idiota que
nada sabe sobre a vida. Apenas a título de informação saibam que não sou
rica, nunca fui e nunca serei. Meu salário é bom, e com ele, se Deus quiser,
nunca passarei fome nem necessidade, mas lutei por ele, e como lutei. Sofri,
estudei, trabalhei e lutei, repita-se. Mas isso é uma outra história que em
outro momento, se interessar a alguém, posso contar.
Contudo,
existem outros motivos que levam as pessoas a formarem suas opiniões
que não necessariamente as suas condições financeiras. Nunca passei fome,
graças a Deus e ao trabalho de meus pais, mas da mesma forma que nunca faltou,
também nunca sobrou. Trabalho desde os 18 anos de idade, quando me submeti a
concurso público e fui ser funcionária pública, trabalhar oito horas diárias e
ganhar menos do que um salário mínimo, apesar da Constituição Federal já vedar
tal conduta. Mas como já disse, isso é uma outra história.
O final de semana passado
retrata exatamente um dos fatores que me levam a formar a opinião que tenho.
Um
simples “boato” de que o Bolsa Família iria acabar foi suficiente para causar
um caos em várias agências da Caixa Econômica Federal. Uma pessoa me disse que teve que pedir dinheiro
emprestado para sair do seu sítio para receber o bolsa família que “ía
acabar”...
A pergunta é: de que viveriam essas pessoas se o bolsa família acabasse?
A pergunta é: de que viveriam essas pessoas se o bolsa família acabasse?
A
minha resposta: passariam ainda mais fome do que tinham quando começaram a
recebê-lo.
E
sabem porque? Porque agora, com a certeza do “benefício”, não se propõem mais a
trabalhar, ou estudar ou se profissionalizar. Enfim. Estão escravizados.
É
a isso que me oponho.
Quando
esse programa foi implantado a situação das pessoas era caótica, lastimável.
Essas pessoas estão sendo tratadas como inúteis, incapazes. A partir do momento em que se implanta um programa de assistência sem uma política paralela de reestruturação, capacitação para restabelecimento de condições de trabalho, auto sustento, enfim, de independência, ou se considera que essas pessoas não tem capacidade para tanto ou não se está querendo ajudar, mas tão somente escravizar. É no que acredito.
Essas pessoas estão sendo tratadas como inúteis, incapazes. A partir do momento em que se implanta um programa de assistência sem uma política paralela de reestruturação, capacitação para restabelecimento de condições de trabalho, auto sustento, enfim, de independência, ou se considera que essas pessoas não tem capacidade para tanto ou não se está querendo ajudar, mas tão somente escravizar. É no que acredito.
A
ONU, embora elogie o programa, critica o assistencialismo e o apelo político
que ele gera. Segundo essa Organização o programa rendeu muita popularidade e
votos, mas as desigualdades continuam elevadas com pequenos progressos.Como programa de
caráter EMERGENCIAL, o Bolsa Família foi importante, mas onde está a inclusão
socieconômica sustentável das populações?
O
saudoso Luiz Gonzaga já dizia em uma de suas canções, de composição com Zé
Dantas: “Seu Doutor uma esmola para o homem que é são, ou lhe mata de vergonha
ou vicia o cidadão...”. É nisso que acredito muito antes de me tornar Juíza.
A
Coordenadora do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil
afirmou que da forma como o programa funciona, não tem sido útil para
identificar e retirar as crianças do trabalho e que esse programa não tem
impacto nenhum na redução do trabalho infantil.
Vejam
a entrevista de Frei Beto ( que não é juiz), um dos líderes do Fome Zero e me
digam o que acham.O programa existe há 10 anos e pouquíssimo foi mudado na vida
dessas pessoas. O que foi feito de efetivo para reestruturar essas famílias?
Visitem
as casas dessas pessoas e me digam o quanto mudou!
Enquanto
apresentam índices de redução de evasão escolar, em razão do Bolsa Escola, os
adolescentes que passam pela Vara que ocupo não sabem a data de seus
nascimentos, não sabem o seu nome completo, não sabem o nome de seus pais e,
pasmem, não tem a menor ideia de seus endereços.
Que
noção de civilidade esses meninos tem? Esses mesmos meninos que estão querendo
jogar na prisão!?!
Quem
ou que vai dar essa noção de civilidade senão um programa sério de educação,
capacitação, dignificação das pessoas? Bolsa família não dignifica. Escraviza.
É o que acho.
As pessoas se tornam escravas da vontade política e não formadoras dessa vontade. E isso para mim é um faz de conta sim.
As pessoas se tornam escravas da vontade política e não formadoras dessa vontade. E isso para mim é um faz de conta sim.
Não
disse que a Presidente era um faz de conta. Disse que o Brasil é um País de faz
de conta.
Defender a redução da maioridade penal é um exemplo disso. Defender a pena de morte também. Fazem de conta que isso vai resolver a criminalidade e não vai. Da mesma forma que fazem de conta que cumprem o ECA, que existe há mais de vinte anos, e não cumprem. Nunca cumpriram.
Defender a redução da maioridade penal é um exemplo disso. Defender a pena de morte também. Fazem de conta que isso vai resolver a criminalidade e não vai. Da mesma forma que fazem de conta que cumprem o ECA, que existe há mais de vinte anos, e não cumprem. Nunca cumpriram.
Como
eu posso cobrar de alguém a quem eu nunca dei a chance???
As
pessoas não podem viver de esmolas. Precisam aprender a andar com as próprias
pernas e precisam saber que isso é responsabilidade delas também.
É
dever dos Governos Federal, Estadual e Municipal oferecer essas condições e dos
cidadãos escolher uma delas e seguir suas vidas com a dignidade que cada
profissão oferece, porque todas a tem.
Vejo
mulheres jovens e saudáveis pedindo dinheiro nas ruas. Cada uma com seus três
ou quatro filhos. Mas nenhuma pede um emprego. Porque?
Os
senhores tem ideia de quantos cartões desse programa estão nas famosas “Bocas de fumo”?
Vejo
homens jovens e saudáveis nas portas dos bares ou papeando nas esquinas em
pleno dia da semana. Porque não estão trabalhando?
Qual
o trabalho que as políticas públicas oferecem ou a capacitação?
É
certo que existem alguns programas profissionalizantes. Mas são tímidos,
limitados, e não recebem a milésima parte do investimento que o programa de
“caridade” gasta.
A quê isso vai nos levar, senhores? A quê nos levou até agora? Como estão essas pessoas? Sem fome? Tem certeza que R$ 130,00 (cento e trinta reais) realmente mata essa fome?
Não sou contra partido político algum. Sou contra políticas públicas inúteis e danosas ao futuro da nossa Nação. Sou e serei sempre.
A quê isso vai nos levar, senhores? A quê nos levou até agora? Como estão essas pessoas? Sem fome? Tem certeza que R$ 130,00 (cento e trinta reais) realmente mata essa fome?
Não sou contra partido político algum. Sou contra políticas públicas inúteis e danosas ao futuro da nossa Nação. Sou e serei sempre.
É
a minha opinião senhores. Respeitem. Discordem, mas respeitem. E não sejam tão
simplistas assim. As coisas não são simples e não podem ser “explicadas” dessa
forma principalmente por quem não me conhece.
O
homem precisa ser dignificado e não escravizado. As pessoas continuam sofrendo
com a seca absolutamente TODOS OS ANOS HÁ DÉCADAS. E o que foi feito de
política de irrigação, de política que permaneça que se perpetue e que de fato
transforme a vida do sertanejo?
É
contra isso que sou. Sou Nordestina com muito orgulho e me sinto humilhada com
notícias como as que passaram no Jornal Nacional com pessoas
“famintas” na porta do Banco para receberem suas migalhas.
Não
precisamos disso. Somos inteligentes e capazes. Temos força e vontade de trabalhar. Só
precisamos de oportunidades e onde elas estão? Onde está a água das chuvas do
ano passado?
Bem.
Não sei se melhorei muito a situação. Mas não foi essa a minha intenção.
Precisava apenas explicar os meus motivos.
Aos
que me criticaram com decência, fico com as críticas para refletir sobre elas
na construção de minhas opiniões futuras.
Aos
que apenas me agrediram, fico com a dor que me causaram e com o consolo de que
o tempo cura quase tudo.
Aos
que perderam alguns minutos de suas vidas para lerem essa minha resposta.
Agradeço a atenção.
A
todos. Reafirmo. Esta é a minha opinião. Não a de uma Juíza, mas a de uma
mulher que quer muito mais do que esmolas para o cidadão brasileiro e,
principalmente, para os jovens adolescentes.
Que
Deus esteja conosco!
Cajazeiras – PB, 26 de maio de 2013.
Cajazeiras – PB, 26 de maio de 2013.
Adriana
Lins de Oliveira Bezerra
Juíza de Direito, Eleitora e Cidadã
Juíza de Direito, Eleitora e Cidadã
Texto maravilhoso. Parabéns! Me ajudou muito, fiz um post no facebook fundamentado na sua escrita. Já não aguento mais a doutrina de que o bolsa família é bom na escola.
ResponderExcluirtwitter.com/lucasbarbosasep;
Obrigado Lucas, divulgue mesmo, não podemos nos calar diante dessa política famigerada.
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